Manifesto

Por uma Associação Brasileira de Designers de Narrativa e Escritores de Jogos

Nós, designers de narrativa, escritoras e escritores de jogos e demais profissionais de narrativa em jogos, digitais ou não-digitais — os responsáveis por tecer as histórias, as temáticas e os mundos que se integram com os sistemas, as mecânicas e os níveis dos jogos que ajudamos a desenvolver — nos reunimos para reivindicar nosso espaço e reafirmar nosso papel essencial na criação de jogos. Somos a voz que dá vida aos personagens, que molda o universo das narrativas interativas, que contextualiza e fortalece as experiências de jogo e que tem o poder de transformar, por meio das histórias que contamos, o presente e o futuro da nossa sociedade.

Em nossa atuação profissional e artística, explorando o potencial de nossa arte e de nossa cultura brasileira, percebemos que:

  • Jogos são uma forma de arte. Jogos são arte tanto quanto a música, a literatura e o cinema, e a narrativa para jogos é uma parte essencial dessa manifestação artística e cultural. Defendemos a mais ampla liberdade artística para os jogos, livres de censura, ao mesmo tempo que defendemos a atuação responsável e ética em nosso ofício;
  • Jogos têm potencial transformador. Jogos, sendo forma de arte e de cultura, são mais do que entretenimento — são ferramentas poderosas de formação de consciência e empatia. Eles têm a capacidade de ensinar, emocionar e desafiar jogadores e jogadoras a serem melhores, mais humanos. E a narrativa, ao permitir vivenciar tramas envolventes, personagens marcantes e mundos cativantes, catalisa esse potencial;
  • Somos trabalhadores e merecemos respeito. O trabalho criativo, técnico, acadêmico e tecnológico que desenvolvemos não é menos valioso do que qualquer outro dentro da indústria de jogos. Precisamos de melhores condições, reconhecimento e valorização, assim como qualquer trabalhador. Não aceitamos mais ser invisibilizados, marginalizados, explorados, ou ter o nosso ofício sucateado;
  • A escrita para jogos é diferente da escrita tradicional. Embora compartilhe de várias semelhanças com outros campos da arte que têm como base o roteiro — incluindo cinema, televisão, teatro, e histórias em quadrinhos —, há uma série de diferenças essenciais que caracterizam nosso ofício, como a agência do jogador, a não-linearidade e a integração com as mecânicas e os sistemas dos jogos. Acreditamos que um trabalho profissional de narrativa para jogos, para atingir a sua excelência, deve respeitar essas diferenças e celebrar as particularidades do nosso meio, respeitando a formação e a vivência do profissional do design de narrativa e escrita para jogos;
  • Diversidade é essencial para a criação. A pluralidade de experiências e vozes é o que torna a arte de fazer jogos verdadeiramente rica e inovadora. Mulheres, pessoas negras, pardas, indígenas, LGBTQIA+ e outros grupos historicamente excluídos devem ter espaço e protagonismo tanto nas histórias que contamos quanto nas equipes de desenvolvimento. Apoiamos fervorosamente as iniciativas que tenham como objetivo fomentar esta diversidade e inclusão;
  • O Brasil merece destaque na cena nacional e internacional de jogos. O Brasil possui uma das mais ricas e diversificadas culturas do mundo, e os profissionais brasileiros da indústria de jogos são reconhecidos no mundo todo por seu talento, criatividade e dedicação. O nosso país merece estar entre os maiores produtores de jogos mundiais, levando mundo afora nosso talento e cultura;
  • O coletivo é maior que a soma dos indivíduos. Não somos capazes de realizar grandes mudanças individualmente. Para garantir os avanços que almejamos para os profissionais de narrativa e escrita para jogos, para a indústria nacional de jogos e para a sociedade, como liberdade artística e de ofício, reconhecimento e respeito à nossa profissão e estabilidade de emprego e renda, precisamos de um esforço conjunto, organizado em um coletivo.

Em face a isso, há um ano nos reunimos em uma comunidade formada por profissionais de narrativa para jogos de todo o Brasil, visando a construção dessa luta coletiva. E hoje, após muitas discussões e trocas de vivências, chegamos à conclusão que essa luta precisa tomar um passo decisivo adiante.

Assim, tornamos pública a nossa intenção de fundar uma Associação Brasileira de Designers de Narrativa e Escritores de Jogos, que tenha como compromisso:

  • Lutar pelo reconhecimento, respeito e valorização do ofício e dos profissionais de design de narrativa e escrita para jogos, bem como de áreas intrinsecamente relacionadas, como roteiro, pesquisa e ensino, tradução e localização, redação de manuais, e jornalismo de jogos;
  • Lutar por condições dignas de trabalho para nossa área, garantindo, entre outras iniciativas: que se assegurem vagas para profissionais de narrativa em estúdios de jogos; que editais de fomento contemplem nosso ofício, seja através de editais exclusivamente voltados para formação, produção e difusão da área, seja pela inclusão de nossos profissionais nos editais existentes; que o profissional de narrativa seja devidamente creditado por seu trabalho; e que o Poder Público reconheça e proteja os profissionais de nossa área;
  • Facilitar a capacitação de novos talentos, venham estes de outros ramos ligados à escrita de roteiro ou não, ao destacar características únicas ao design de narrativa, investindo em educação, treinamento, divulgação e democratização do conhecimento necessário para a realização de nosso ofício;
  • Defender uma narrativa inclusiva e plural, que celebre a diversidade, a cultura, e a representatividade de nosso povo, dando visibilidade a novas vozes, especialmente das minorias sociais e de regiões geográficas tradicionalmente marginalizadas em nossa indústria;
  • Fortalecer a cena de criação de jogos nacional, valorizando nossos profissionais e nossa cultura, de modo a colocar o Brasil numa posição privilegiada frente à cena internacional;
  • Fortalecer a união entre profissionais de todas as áreas da criação e do desenvolvimento de jogos, do Brasil e do mundo, criando um ambiente ainda mais colaborativo, respeitoso e frutífero, com base no respeito à multidisciplinaridade de nossa indústria, na solidariedade internacional da classe trabalhadora e no apoio mútuo;
  • Construir uma Associação democrática, plural e de luta, que respeite e celebre as divergências, que seja uma representação justa e democrática de todas as vozes que a componham, e que esteja sempre na vanguarda das lutas políticas e sindicais da categoria.

A recente aprovação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852, de 3 de maio de 2024), que trouxe, dentre tantas vitórias, o reconhecimento da profissão de Designer de Narrativa, em seu artigo 7º, parágrafo 3º, inciso III — reconhecimento este que é inédito no mundo todo —, mostra não somente que a nossa luta é justa, mas também que estamos no momento mais oportuno da história para levantar essa bandeira.

Juntos somos capazes de conquistar o respeito e o reconhecimento que nosso ofício merece e, por consequência, transformar a indústria de jogos brasileira em uma fonte de narrativas espetaculares e experiências únicas que irá, com certeza, conquistar o mundo todo a partir da criatividade e da cultura brasileira.

É possível lutar e vencer!

Comitê Organizador da Comunidade Escrita de Jogos (Game Writers Brasil)

Thiago Baptista

Pedro Giglio

Horacio Corral

Yuri de Souza Guimarães

David Stéfano Souza da Silva

André Reis Cappelasso

Lia Godoy

Renata de Lima Martins

Luís Lessa Sôlha

Alvaro Nabuco de Campos Ferreira Lima

Rodrigo Domingues

Victor de Paiva


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